ARTIGO – Quando o Sertão Beija o Mar

Saulo Passos – Foto: arquivo pessoal

Por Saulo Passos*

Eu vi a sublime alma do fado. E desde então carrego comigo uma pergunta que não se aquieta: será o fado apenas filho de Alfama, ou terá também raízes fincadas no outro lado do oceano? Porque há sentimentos que não respeitam geografia.

A saudade, por exemplo, não tem pátria — ela apenas habita. E o banzo, esse sofrimento manso e profundo, também não escolhe chão: instala-se e pronto.Talvez o fado seja isso — um encontro de dores que aprenderam a cantar.

Fui a Alfama numa tarde que já prometia noite. O bairro me recebeu com suas ruas estreitas, como se fossem caminhos de memória. As pedras guardavam passos antigos, e as paredes pareciam cochichar histórias de gente que viveu, sofreu e amou demais.

Caminhar por Alfama é como andar dentro de uma lembrança que não é sua — mas que, de algum modo, lhe pertence. Voltei outras vezes. Fui ficando. E quando percebi, já era daqueles que procuram a noite como quem procura resposta.

Fotos: reprodução

Numa dessas noites, entrei numa casa de fado. Havia silêncio. Não um silêncio vazio, mas um silêncio cheio — desses que o sertanejo conhece bem, quando o vento para e o mundo parece escutar alguma coisa que ainda vai acontecer.Sentei-me. Esperei.Então, ela surgiu.

Fotos: reprodução

A fadista caminhou até o palco sem pressa, com a firmeza de quem sabe o peso que carrega na voz. Não era apenas uma cantora — era uma guardiã de sentimentos antigos.
E cantou.

O fado que entoou era desconhecido para mim, mas não me era estranho. Havia nele algo familiar, como o lamento de um aboio perdido na imensidão do sertão, como a cantiga de quem fala com a própria solidão.
Senti um aperto no peito.

As luzes se aquietaram ainda mais, como se também quisessem ouvir melhor. E a voz dela foi crescendo… crescendo… tomando conta do espaço, do tempo, de mim.
Era como ver um rio encher devagar, até não caber mais nas margens.
E então aconteceu.

A poesia — essa coisa invisível que às vezes se revela — pediu licença e entrou. Não como palavra escrita, mas como presença viva. Aproximou-se do fado e o envolveu num abraço íntimo, antigo, inevitável. Ali, já não eram dois.Eram um só corpo feito de saudade, dor e beleza. Foi nesse instante que compreendi.

O sertão e o mar não são tão distantes quanto parecem. Ambos conhecem a falta, o silêncio, a espera. Ambos sabem o que é viver com o coração apertado e, ainda assim, seguir cantando.

A noite, como que respeitando aquele encontro, fechou os olhos.
E eu, tomado por um assombro sereno, vi o fado beijar ternamente a poesia.Saí dali outro homem. E até hoje, quando a saudade aperta — seja ela de quê for — eu me lembro: há dores que cantam. E quando cantam bonito, deixam de ser apenas dor.
Viram fado.

*Saulo Passos é historiador, escritor, apologista, advogado, matemático, engenheiro e colaborador do Blog TV Umburanas

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