
Neste exato momento, os seus olhos estão produzindo humor aquoso, um líquido essencial para a saúde ocular que precisa ser drenado continuamente, processo que ocorre naturalmente por meio da malha trabecular, um filtro do sistema ocular. Após passar por essa malha, o líquido segue para o canal de Schlemm e, em seguida, é absorvido pela corrente sanguínea. Assim, o ciclo se repete, garantindo a pressão ideal necessária para manter os olhos saudáveis.
Mas e se algo comprometer esse processo? É nesse momento que pode ocorrer o glaucoma, doença que afeta mais de 70 milhões de pessoas no mundo, segundo a World Glaucoma Association (WGA).
O glaucoma provoca falha na drenagem do humor aquoso, levando ao acúmulo do líquido e ao aumento da pressão intraocular. Essa pressão comprime a região onde o nervo óptico, responsável por levar as imagens ao cérebro, se conecta ao olho. Com o tempo, a circulação ocular é prejudicada, as fibras nervosas são comprometidas e a pessoa começa a perder a visão de forma progressiva.
O impacto dessa doença silenciosa aparece nos dados. Segundo a Sociedade Brasileira de Glaucoma, ela é a principal causa de cegueira irreversível no mundo. Já de acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia, estima-se que cerca de 1 milhão de brasileiros tenham glaucoma; desses, aproximadamente 70% ainda não foram diagnosticados.
No quinto mês do ano celebra-se a campanha nacional Maio Verde, que visa conscientizar a população quanto aos riscos do glaucoma. Segundo o especialista em glaucoma, o oftalmologista Pedro Falcão, do Instituto de Olhos Recife (IOR), a doença não apresenta sintomas específicos nas fases iniciais.
“Geralmente, no início, de forma sorrateira, a maioria dos pacientes não apresenta sintomas, já que a elevação da pressão ocular costuma ser lenta e gradual. Exceto nos casos de glaucoma agudo de ângulo fechado, em que essa elevação é brusca e acentuada, com quadro intenso de dor ocular e baixa visual”, explica.
FATORES DE RISCO E DIAGNÓSTICO PRECOCE SÃO ESSENCIAIS
Entre os fatores de risco do glaucoma estão idade avançada, raça negra, histórico familiar da doença e uso de corticoides. “Outros fatores incluem comorbidades associadas ao glaucoma, como hipertensão arterial, diabetes, enxaqueca, alta miopia e distúrbios do sono, como a apneia”, diz Pedro Falcão.
A prevenção do glaucoma ocorre por meio do diagnóstico precoce. Quanto mais cedo ele é feito, melhor. Isso porque o tratamento não reverte o dano já sofrido pelo nervo óptico, mas atua na prevenção da progressão da doença para sua consequência mais grave, a cegueira irreversível.
“Esse desfecho de cegueira irreversível é o que tentamos evitar com o diagnóstico e o tratamento precoces. Como é uma doença crônica, a progressão geralmente não é rápida e pode levar anos em alguns casos”, explica. “Porém, quanto maior o nível da pressão ocular, maior será a velocidade de destruição das fibras nervosas e do aumento da escavação do nervo óptico”, alerta o oftalmologista.
Para diagnosticar precocemente, é essencial que pessoas sem a doença, mas com fatores de risco, realizem exames a cada 1 ou 2 anos, com foco na medição da pressão intraocular (tonometria) e na avaliação do fundo de olho (oftalmoscopia), que permite examinar a saúde do nervo óptico. Para quem já tem a doença, os intervalos são menores, podendo variar de 6 a 12 meses (em casos leves) até 1 a 3 meses em casos mais avançados.
TRATAMENTO É ABRANGENTE
O tratamento do glaucoma envolve um conjunto de estratégias que vão além do controle da pressão intraocular, principal fator de risco. Os cuidados incluem controle de comorbidades, quando presentes, uso de colírios, procedimentos a laser e cirurgia.
De acordo com especialistas, os colírios são eficazes e não invasivos, mas podem causar irritação ocular e exigem uso contínuo, além do comprometimento do paciente em utilizá-los corretamente e todos os dias.
O laser é um procedimento rápido e seguro, que pode reduzir ou até substituir o uso de colírios em alguns casos. No entanto, seu efeito pode não ser permanente, diminuindo com o tempo em alguns pacientes, por isso, costuma ser indicado principalmente nas fases iniciais da doença. Já as cirurgias são reservadas para casos que não respondem ao tratamento clínico. De modo geral, tanto o diagnóstico quanto o tratamento exigem acompanhamento contínuo e especializado com o oftalmologista.
Foto: Freepik





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