
Por Saulo Passos
No sertão do Pajeú, viveu um homem amante da arte e do bom viver: Cícero Vieira. Vindo de Ouro Velho, no Cariri paraibano, trazia no peito uma paz maior que o céu sertanejo em noite enluarada. Em Itapetim, onde fincou raízes, o povo dizia que Seu Cícero tinha o coração tão manso quanto o caminhar sereno da rolinha branca.
No ano de 1953, uma seca braba castigou o sertão. A terra já não dava mais milho, e o feijão era apenas lembrança. Homens famintos engrossavam as fileiras do êxodo rural, abandonando o chão natal em busca de feiras nas cidades. Vinham com os olhos ardendo de fome, prontos para saquear o que fosse preciso.
Foi assim também em Itapetim. Mas, antes de descerem a Serrinha, ao passarem pela porta de Seu Cícero, foram surpreendidos por algo inusitado: calma.
De pé, chapéu de palha na mão, Seu Cícero ofereceu o que tinha — rapadura e farinha. Uma rapadura e um litro de farinha para cada irmão. A fome, que queimava como sol de meio-dia, se acalmou diante daquele gesto. E onde poderia nascer a violência, brotou a gratidão. Os homens tomaram outro rumo, com a alma mais leve que pluma ao vento.
Noutra ocasião, um vizinho, cobiçando as terras de Seu Cícero, deslocou a cerca que os separava — dez braças pra dentro do roçado daquele homem calmo, mas sábio. Ao perceber, Seu Cícero não se exaltou. Não gritou. Não brigou. Mandou medir as tais dez braças… e depois mais dez. E então disse, com serenidade:
— Pode passar a cerca aqui. O que sobra ainda dá pra eu viver e criar minha família.
Envergonhado, o vizinho recolocou a cerca no lugar de origem. E nunca mais mexeu com isso.
Nas terras de Seu Cícero havia também um canavial bonito, cobiçado pelos meninos da vizinhança, que vez ou outra se arriscavam a “surrupiar” algumas canas. Um dia, ouvindo barulho entre os pés de cana, Seu Cícero foi até lá. Parou em silêncio, apenas esperando. Seu filho chegou e perguntou:
— O que o senhor tá fazendo aqui, pai?
E ele respondeu:
— Tô esperando os meninos saírem, pra que não fiquem envergonhados com a minha inesperada presença.
Assim era Seu Cícero: um homem que plantava calma onde o mundo via apenas sede, fome e disputa. Dizem que, quando ele partiu, o vento do sertão ficou mais inquieto, como quem sentia falta da sabedoria que andava devagar, com fala mansa e coração grande.
Por isso, até hoje, quando alguém resolve um problema com gentileza no Pajeú, o povo diz:
— Foi do jeitinho de Seu Cícero Vieira…

Saulo Passos é historiador, escritor, apologista, advogado, matemático, engenheiro e colaborador do Blog TV Umburanas





Deixe um comentário