
“Medicina camponesa”, os novos doutores da enxada.Nesta última terça-feira (02), a UFPE promoveu a aula inaugural de sua primeira turma especial de Medicina voltada a assentados, acampados, quilombolas e beneficiários de crédito fundiário — 80 sortudos (59 mulheres e 21 homens), garimpados entre mais de mil e duzentos candidatos de todo o país.
A iniciativa, celebrada como “inédita”, vem de uma parceria com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), sob o chapéu do Pronera, com supostos R$ 18,6 milhões para financiar seus futuros “médicos do campo”.
Mas antes de colocar jalecos e estetoscópios nas mãos desses 80 rostos “vindos da terra”, convém lembrar que esse “projeto social” passou por meses de trapalhadas na Justiça. O edital chegou a ser suspenso não uma, mas várias vezes — por juízes que julgaram o processo seletivo “precário, desproporcional” e uma possível afronta à “isenção” do acesso ao ensino superior.
Sim — parece que para garantir o direito de “vir de longe e estudar Medicina”, foi necessário que a própria Justiça, essa guardiã da meritocracia, falasse “calma, pessoal”. Até que a intervenção da Advocacia‑Geral da União (AGU) garantiu que a autonomia universitária da UFPE valia mais do que eventuais críticas de “favoritismo social”.
Agora, a UFPE celebra: “essenciais médicos camponeses” vão “reforçar o SUS nas regiões rurais”.
Mas é tão louvável assim — ou apenas conveniente?
Primeiro: 80 vagas para todo o país? Aguardemos cenas dos próximos capítulos, quando metade do “interesse nacional” virar expectativa frustrada. A promessa de ampla representação — assentados do Norte, Nordeste, Centro-Oeste, quilombolas — soa pomposa, mas com tão poucas vagas, parece mais propaganda social do que planejamento real. Segundo: seleção via histórico escolar + redação — sem o tradicional Enem, sem prova de conhecimentos específicos — para entrar em Medicina, um dos cursos mais concorridos e complexos do país. Alguém realmente acredita que esse critério é equivalente? Ou será que o objetivo não é formar “médicos iguais aos outros”, mas médicos com perfil “socialmente desejável”? Terceiro: o custo. Segundo os dados oficiais, o Pronera/Incra/UFPE vai investir milhões — ótimo para a imagem institucional. Mas não se falou claramente sobre infraestrutura: hospitais-escola? Estágios? Estrutura para atender com qualidade nas zonas rurais? Ou é tudo fachada acadêmica, com promessa de “retorno social” no papel e pouco na prática? Quarto: o contexto. A própria judicialização escancarou que há quem enxergue nessa iniciativa mais do que uma questão educacional — uma disputa ideológica por quem “merece” entrar numa universidade pública.
Pode até ser caridoso dizer que “estão abrindo portas para quem nunca teve chance”. Mas a pergunta que fica — e parece evitar ser feita — é: será que com esses critérios, quem entra está apto para carregar vidas nos ombros? Ou está entrando alguém, apenas para fazer número e justificar investimentos?
Epílogo — e ironia final
Vejam só: 80 aspirantes a médico, vindos da terra, fingindo que o campo também merece jaleco e estetoscópio. Uma aula inaugural emocionante, discursos sobre “inclusão histórica”, “justiça social”, “SUS forte”. Tudo perfeito para fotos bonitas, manchetes de prestígio e feel-good news para quem aprovou a ideia.
Mas quando alguém pedir para salvar uma vida de verdade, será que vão perguntar “Você fez Enem, cursinho, prova complicada?” — ou vão simplesmente dizer “Você passou no edital especial, parabéns”?
No fim das contas, essa turma especial de Medicina da UFPE pode se tornar menos uma revolução social e mais um símbolo de “igualdade aparente”: muita retórica, pouco rigor — e talvez, o risco real de que “medicina social” vire rótulo vazio.
Foto: divulgação





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