
Por Saulo Passos*
Quando se fala na “Sanfona de Neném”, poucos sabem, de imediato, a quem ela pertenceu. O nome soa íntimo, quase doméstico — como se fosse o brinquedo querido de uma criança do interior. E, de certo modo, era. Antes de se tornar sinônimo de genialidade musical, Neném foi apenas um menino abraçado ao seu instrumento. O apelido carinhoso acompanhou a infância e atravessou o tempo até revelar ao Brasil e ao mundo que aquele Neném era ninguém menos que Dominguinhos, nascido em Garanhuns.
Aquela sanfona nunca foi apenas fole, teclas, botões e correias. Havia nela uma alma vibrante que encontrava repouso no colo afetuoso do menino. Era como se instrumento e músico crescessem juntos, aprendendo a respirar no mesmo compasso. Sem jamais ter estudado partitura, o garoto simples do Agreste pernambucano se tornaria um dos maiores instrumentistas do planeta, guiado por um ouvido extraordinário e por uma sensibilidade que dispensava qualquer papel pautado.
Seus dedos grossos, improváveis para botões tão diminutos, pareciam contrariar a lógica do instrumento. No entanto, quando tocavam, produziam sons que arrepiavam a pele e alcançavam emoções profundas. Não era virtuosismo vazio; era sentimento transformado em melodia. Uma força musical que até Luiz Gonzaga, o eterno Rei do Baião, reconhecia e reverenciava com admiração sincera.

Dominguinhos tocava como quem conversa com o vento do sertão — entendendo o silêncio da seca e celebrando a chegada da chuva. Sua música era oração e festa ao mesmo tempo, lamento e esperança entrelaçados em cada acorde. Ao empunhar a sanfona, não executava apenas notas: narrava histórias do povo nordestino, traduzia saudades e espalhava alegria.
Humilde como poucos, jamais expunha um parceiro por um deslize. Seu olhar sereno acolhia, sua postura ensinava. Entre ele e Gonzaga havia mais que respeito artístico — existia cumplicidade, afeto e uma sintonia que transcendia o palco. Por tudo isso, o Rei sempre gostava de homenagear Dominguinhos em suas músicas: “olha as cadeiras dessa nega bole-bole que parece até o fole da sanfona do Neném, olha as cadeiras dessa nega tem um molho, todo mundo bota o olho, quando dança o xenhenhém”.
A Sanfona de Neném, afinal, não era apenas um instrumento. Era extensão de sua alma. Falava, chorava, sorria. E, nas mãos daquele menino que o Brasil aprendeu a chamar de Dominguinhos, tornou-se eterna.
Salve, Neném!
*Saulo Passos é historiador, escritor, apologista, advogado, matemático, engenheiro e colaborador do Blog TV Umburanas





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