Por Saulo Passos
No coração do Sertão do Pajeú, algumas histórias se confundem com a própria formação política e social das cidades. Entre essas trajetórias está a de João Alves dos Passos, personagem que deixou sua marca na vida pública de Itapetim e cujo caminho começou longe dali, na vizinha Sertânia, no chamado Sertão do Moxotó.

Nascido em 17 de setembro de 1930, em Sertânia, João dos Passos chegou a Itapetim em 1951, ainda jovem, para assumir um emprego federal nos Correios. A mudança que inicialmente parecia apenas profissional acabaria transformando seu destino e o da própria comunidade. Com seu jeito simples e prestativo, ele rapidamente construiu amizades e passou a integrar o cotidiano da pequena cidade sertaneja.
Entre as relações que marcaram sua vida estava a amizade com o médico Dr. Clístenes Péricles Leal, profissional respeitado na região. A convivência com o médico despertou em João dos Passos um profundo interesse pela área de saúde. Ao longo dos anos, ele assimilou conhecimentos básicos sobre sintomas e cuidados com doenças comuns no sertão, tornando-se uma espécie de conselheiro popular para muitos moradores.
Em um tempo em que o acesso a médicos e hospitais era limitado nas pequenas cidades do interior, muitas pessoas passaram a procurar “Seu João dos Passos” em busca de orientação. O atendimento informal, aliado à confiança que conquistou entre os moradores, fez sua reputação crescer e ultrapassar os limites da sede municipal. Em diversas ocasiões, ele chegou a receitar remédios simples, aplicar injeções e até auxiliar em partos, prestando ajuda em situações emergenciais quando não havia profissionais de saúde disponíveis na região.
O reconhecimento popular acabou naturalmente abrindo portas para a vida pública. Em 1968, João dos Passos disputou uma vaga na Câmara Municipal de Itapetim. A votação obtida foi tão expressiva que chamou a atenção em todo o Vale do Pajeú, tornando-se uma das mais marcantes da história política local — um resultado que, segundo relatos da tradição política da região, só seria superado mais de meio século depois.
O prestígio acumulado ao longo dos anos fez com que seu nome fosse escolhido, em 1972, para disputar a prefeitura de Itapetim. Filiado à Aliança Renovadora Nacional, partido que predominava no cenário político brasileiro durante o período do Regime Militar Brasileiro (1964–1985), João dos Passos acabou entrando na disputa sem enfrentar adversários.
Naquele momento, a oposição local procurou seus aliados políticos e propôs um acordo para que não houvesse disputa eleitoral. O entendimento entre os grupos políticos da época resultou em uma candidatura única, reflexo do prestígio e da confiança que João dos Passos havia conquistado entre diferentes setores da sociedade itapetinense.
Assim, foi eleito prefeito e assumiu o comando do município para o mandato de 1973 a 1977, integrando a lista de gestores que conduziram a administração municipal ao longo da história da cidade. Um fato curioso da política local é que João dos Passos foi o único prefeito de Itapetim que não nasceu no município e também o único de sua geração que permanece vivo, tornando-se uma testemunha direta de uma fase importante da história política da cidade.
Durante sua administração, João dos Passos deixou importantes legados estruturais que marcaram o desenvolvimento de Itapetim em três áreas fundamentais: saneamento, esporte e infraestrutura viária.

No setor de saneamento, sua gestão foi responsável por levar água encanada para as residências do município, uma conquista histórica obtida através de convênio com a Compesa, que culminou na construção da Barragem de Caramucuqui, obra essencial para o abastecimento hídrico local e para a melhoria da qualidade de vida da população.
Na área de esportes, João dos Passos idealizou e executou a construção do Estádio Municipal Pedro Nunes, popularmente conhecido como “O Maxixão”, equipamento esportivo que se tornou referência para gerações de atletas e desportistas itapetinenses.
Já no campo da infraestrutura rural e mobilidade, sua administração promoveu avanços significativos com a melhoria das estradas municipais, viabilizada pela aquisição de uma motoniveladora (patrol), equipamento que possibilitou a conservação e abertura de vias importantes para o deslocamento da população da zona rural e para o escoamento da produção agrícola.
A história política de João dos Passos também se conecta a uma tradição familiar. A autêntica família Alves dos Passos tem origem na antiga vila de Jabitacá, localidade que hoje pertence ao município de Iguaracy, no Sertão do Pajeú. Seu bisavô, que também se chamava João Alves dos Passos, exerceu o cargo de prefeito em Afogados da Ingazeira, outro importante município da região. Já em Sertânia, um tio da família, Francisco Cunegundes Alves dos Passos, também teve atuação política relevante, como prefeito da cidade.
A influência da família Passos não se limitou a esses nomes. Ao longo das décadas, outros integrantes foram eleitos vereadores em diversos municípios situados entre as regiões do Moxotó e do Pajeú, consolidando uma presença política que atravessou gerações.
Mais do que um político, João dos Passos ficou marcado na memória popular como um homem de confiança do povo. Antes de ocupar cargos públicos, construiu sua liderança no convívio cotidiano com os moradores, oferecendo orientação, ajuda e presença constante em momentos difíceis.
Essa combinação de proximidade com a população e dedicação ao serviço público fez de sua trajetória um exemplo típico do sertão: lideranças que surgem da própria comunidade e se tornam símbolos da história local.
Décadas depois de sua gestão, o nome de João dos Passos ainda é lembrado nas conversas sobre o passado político de Itapetim, como um personagem que ajudou a moldar a identidade e o desenvolvimento do município.
Saulo Passos é historiador, escritor, apologista, advogado, matemático e engenheiro.






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