MDB: especialista em sobreviver, perito em se complicar

No Brasil existem três grandes peculiaridades: o samba, a jabuticaba — que só nasce por aqui — e o MDB, um partido tão singular que consegue ser governo, oposição e problema interno ao mesmo tempo. Trata-se de uma legenda que atravessou regimes, décadas e crises sem jamais resolver sua maior contradição: existir sem saber exatamente para quê.

Nascido da era do autoritarismo e moldado pelo pragmatismo eleitoral, o MDB (antigo PMDB) sempre foi especialista em estar em todo lugar e, simultaneamente, em lugar nenhum. Enquanto os outros partidos disputam identidade e coerência ideológica, o MDB coleciona alianças como quem coleciona figurinhas repetidas — às vezes com Lula(PT), às vezes com o PSDB e os outros partidos — sempre tentando garantir sua sobrevivência institucional e acesso ao poder central. 

Em Pernambuco, essa falta de coesão virou quase política institucional. O MDB pernambucano vive em estado permanente de judicialização, com disputas internas que frequentemente acabam nos tribunais. Brigas por comando partidário, intervenções, recursos e acusações públicas fazem parte da rotina da legenda, criando um cenário de indefinição em que decisões políticas são tomadas mais por liminares do que por consenso.

Neste último mês de dezembro de 2025, por exemplo, o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco cassou a chapa proporcional do MDB em Buíque por fraude à cota de gênero, anulando votos e tirando vereadores eleitos da cadeira por irregularidades na composição das candidaturas. 

Esse cenário se repete, com variações, em diversos outros municípios de Pernambuco. Em muitos deles, o MDB luta para cumprir exigências legais, como a cota de gênero, ou simplesmente para encontrar candidatos dispostos a carregar uma sigla que já não garante, por si só, votos nem tempo de televisão. Montar chapa virou um exercício de sobrevivência, não de estratégia.

A saga não para por aí. A própria executiva estadual do partido chegou a ser acusada por um de seus deputados de “afrontar” decisões judiciais ao insistir em movimentações internas que contrariavam ordens do Tribunal de Justiça de Pernambuco — numa clara amostra de que nem sempre as divergências ficam restritas aos corredores partidários. 

No plano nacional, o MDB – que já sonhou com vice-presidências e até com voos maiores rumo ao Planalto – segue fiel à sua vocação histórica: apoiar quem está no poder, mas sem se comprometer demais. Oscila entre discursos de independência e negociações silenciosas por espaços no governo, num equilíbrio que garante cargos, mas cobra o preço da irrelevância política. Isso tem gerado debates internos e divisões sobre estratégias eleitorais — um sintoma clássico de quem não sabe bem se quer ser protagonista ou figurante. 

E enquanto outras legendas suam para simplesmente montar uma chapa competitiva para as eleições de 2026, muitos observadores políticos apontam que, no MDB, essa tarefa também é um enorme desafio — não só em Pernambuco, mas em vários cantos do país, justamente pela falta de uma narrativa única e coesa que una seus caciques, estaduais e federais, em torno de um projeto claro. 

Na Paraíba, o MDB enfrenta um dilema diferente, mas igualmente revelador: a dificuldade de se manter competitivo e relevante. O partido sofre com divisões internas e com a perda de protagonismo para outras legendas mais alinhadas aos grupos políticos dominantes do estado. O resultado é um MDB frequentemente coadjuvante, lutando para montar chapas minimamente viáveis e evitar o esvaziamento eleitoral.

Em Alagoas, o partido também patina. Apesar de contar com figuras tradicionais da política local, o MDB enfrenta dificuldades para articular alianças sólidas e construir chapas competitivas, especialmente em eleições proporcionais. A fragmentação interna e a dependência de lideranças personalistas expõem a fragilidade estrutural da legenda no estado.

No fim das contas, o MDB permanece como aquela jabuticaba política: única, confusa e tipicamente brasileira. Um partido onde se dança o samba da conveniência, se frutifica a conveniência nas alianças e, vez ou outra, se tropeça em si mesmo no tapete das judicializações estaduais. Seja nos bastidores de Brasília ou nas rodinhas políticas de Pernambuco, o MDB continua difícil de decifrar — e ainda mais difícil de prever.

Redação com informações de alguns veiculos da imprensa nacional

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